A morte de uma estrela contada no céu

Urana, musa grega da Astronomia e Calíope, musa grega da poesia lírica, pintadas por Simon Vouet.

Uma coisa bacana da casa onde eu cresci é sua proximidade com o paraquedismo.

Em linha reta, eu moro a 700 metros desse local que trás pessoas de outros países para saltar. O avião costuma passar bem em cima da minha casa. Antigamente, era comum acordar de sábado assustado por uma rasante de monomotor. Eu e meu irmão dávamos nomes fictícios aos aviões. Isso me fazia ficar cedo já olhando para o céu diurno.

Já no noturno, a primeira coisa que marca é meu avô materno me mostrando os satélites que passavam sobre a Terra. Hoje eu sei como descobrir qual vai passar, e como identificar um satélite. Alias, muitos que estão acima da nossa cabeça sequer passam percebidos pelo olho humano.

Por algum motivo, sempre quis um telescópio. Desde pequeno eu pedia, até que ganhei um. Hoje sei que ele é um telescópio refrator com montagem azimutal e abertura de 50mm. Um simples brinquedo. Não lembro do que eu conseguia enxergar com ele, mas tenho certeza que a lente devia apresentar vários ruídos, além de que a abertura não era o suficiente para enxergar sequer uma Lua de Júpiter.

Amigos, vocês sabiam que é mais fácil ver uma Lua de Júpiter que os Anéis de Saturno?

Então procurei pelos fóruns. Era a época disso. Fórum de Ragnarök Online, de teorias de conspiração, de Astronomia. Por sorte encontrei um foda pra caralho a que devo muito, o Cosmobrain. Ele ainda é ativo, e minhas perguntas ainda estão lá, por 2011, 2012…

Comecei a ler também A Dança do Universo do físico BRASILEIROOOOOOOOOO Marcelo Gleiser. Ele conta a história da Ciência de um jeito que você com certeza vai entender. Desde os homens das cavernas, suas crenças, até explicações de mecânica quântica.

Só então me permiti olhar para o céu. E percebi quão sortudo eu era. A maior parte das pessoas que eu conhecia nesse universo da astronomia sofria um bocado com a poluição luminosa.

Por que eu sou um sortudo? Por morar exatamente em um dos pontos mais altos da cidade, com muros de tamanho o suficiente para me proteger da já fraquíssima poluição luminosa que vem dessa cidadezinha de 60 mil habitantes.

Incontáveis noites de ficar com meu celularzinho apontado para cima, identificando estrelas em imagens pegas na Internet. Mas eu quero falar sobre um corpo em especial.

A morte de uma estrela

Olhe para o céu noturno de novembro, dezembro, janeiro ou fevereiro.

Vai ser fácil notar as Três Marias.

Ela faz parte da Constelação de Órion.

Um dia, Órion, um caçador, se apaixonou por Diana, a filha de Zeus e deusa da caça.

O Deus dos deuses, furioso, mandou um escorpião à Terra para matar o jovem caçador. Porém sempre que o animal tentava uma investida, Órion escapava, e assim começou uma guerra sem fim entre os dois.

As Três Marias não são um conjunto propriamente dito de estrelas. Elas estão em distâncias extremamente diferentes da Terra. Elas são chamadas também de Cinturão de Órion. Dá pra entender o porquê.

Na imagem que coloquei, cada estrela dessa constelação está identificada. Esses números do lado representam as magnitudes de cada estrela. Quanto menor, mais brilhante a estrela é.

O Sol apresenta uma magnitude de -26. A da Lua Cheia é aproximadamente -12, enquanto Sirius, a estrela mais forte do céu, da qual também falaremos mais tarde, está em -1,46.

A estrela que representa a magnitude 0 (zero) é Vega na constelação de Lira. Cada nível inteiro, de cima para baixo, representa que aquela estrela é mais ou menos 2,51 vezes mais forte ou fraca que Vega.’1

Portanto, uma estrela com magnitude 1 brilha para nós, seres da Terra, 2,51 vezes mais fracamente que Vega.

Rigel é, portanto, a estrela de menor magnitude da Constelação de Órion. Seu brilho vai ser facilmente notável. Ela apresenta um azul calmo, mas forte. Normalmente é uma das primeiras estrelas a se ver enquanto anoitece, bem antes das Três Marias.

Do outro lado da Constelação de Órion está Betelgeuse, e eu estava ansioso para falar dela. Aliás, se diz Beteugóise.

Essa estrela é única no nosso céu, e está na última fase que um corpo que se sustenta pode apresentar: sua morte.

A anciã

A mais vermelha estrela do céu noturno, Betelgeuse. Credit: ESA/Herschel/PACS/L. Decin et al

Em termos práticos, ela é a estrela mais velha do nosso céu. Mas não literalmente.

Ela é incrível. Imagine que toda a reação que faz uma estrela brilhar e se sustentar usa o hidrogênio como combustível. Estrelas nada mais são que grandes quantidades de hidrogênio se fundindo em hélio. Estrelas maiores podem até fundir o hélio, e outras ainda maiores podem chegar ao Ferro.

Betelgeuse é aquele tipo de estrela que morre quando seu hidrogênio acaba. Ela é 15 ou 20 vezes maior que o Sol, e acontece com ela mais ou menos que acontecerá com nossa estrela mãe daqui a 4 bilhões de anos.

Boa parte do seu hidrogênio já foi utilizado e fundido em hélio, e o próximo passo é expandir. O termo se chama Gigante Vermelha. Seu núcleo ficará no lugar, porém a atmosfera e a superfície irão aumentar e engolir qualquer coisa que estiver nessa área.

É legal saber que em dezembro do ano passado (12/2016), Betelgeuse começou a girar muito depressa e a se expandir, engolindo até uma estrela vizinha, um verdadeiro ato de canibalismo estelar.

A próxima etapa é se tornar uma supernova. Literalmente, uma estrela que explodiu. Isso já é esperado há algum tempo, e não é a primeira vez que a humanidade vê esse tipo de coisa.

Na China do Século X, muitos arquivos comprovam uma forte estrela que apareceu na constelação de Touro (ali bem pertinho de Órion) e foi sumindo em poucos meses até desaparecer por completo da vista humana. Hoje em dia, olhando pelo mesmo local com um potente telescópio, podemos observar o que se formou no lugar: A Nebulosa de Caranguejo.

E assim será com Betelgeuse. Chutando alto, será possível até enxergar seu brilho durante o dia.

Na realidade, existem estrelas mais velhas que Betelgeuse no céu, porém que têm suas estimativas de vida bem maiores que a da nossa querida gigante vermelha.

A Nebulosa de Caranguejo em Touro.

A teoria da relatividade e como agora você vai ficar louco

Você ficou preocupado? Não precisa.

Betelgeuse está a 650 anos-luz de nós. A essa distância, mesmo um evento astronômico de grande porte não tem qualquer relevância sobre a vida na Terra.

Imagine que as partículas que compõem a luz, o fóton, viaja na maior velocidade que é fisicamente possível alcançar no Universo, e exatamente por isso se dá à ela o nome velocidade da luz.

Agora imagine que você acendeu uma lanterna no espaço. Essas partículas saem da sua lanterna e vão em direção ao infinito. Qual a distância que esses fótons teriam percorrido depois de exatamente 1 ano? Esse número é o incrível valor de 9.460.730.472.580,8 km, ou percorrer a distância da Terra ao Sol 63 vezes.

Então, imaginem comigo: se Betelgeuse está a 650 anos-luz de nós, toda luz e informação que estamos observando saiu de lá há mais de seis séculos.

Enquanto a gigante vermelha explodia e engolia sua companheira estelar, a peste bubônica assolava a Europa.

E mais: os portugueses e espanhóis saíam para as grandes navegações e Leonardo da Vinci fazia os primeiros esboços.

Essa propriedade física do céu só foi explicada cinco séculos depois, com Einstein e sua Teoria da Relatividade Restrita. E ainda assim, não é completamente compreendida.

Os astrônomos se perguntam em quanto tempo veremos esse espetáculo. Alguns chutam anos, porém cada informação que chega nos deixa mais próximo do dia real.

Agora, só nos resta observar pacientes o desenrolar da história de Betelgeuse. Seu ciclo de vida e morte, de expansão e brilho.

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